Somos Impulso

Cinco filmes para ver no In-Edit Brasil

A psicodelia, o samba-jazz, a bossa nova, a música experimental e o mercado fonográfico do vinil são alguns dos temas retratados no festival de documentários musicais de 2018.

A décima edição do In-Edit Brasil acontece entre os dias 7 e 17 de junho em São Paulo. Com uma programação de mais de 120 filmes inteiramente dedicada aos documentários musicais, a edição de 2018 apresenta e resgata alguns personagens que andavam meio esquecidos do imaginário e do cenário musical brasileiros. Entre os filmes exibidos, apresento uma pequena seleção de alguns filmes e personagens que me chamaram a atenção de serem retratados.

 

Por Itamar Dantas

 

A Guitarra e o Plebeu – direção de Breno Soares

 

“A Guitarra e o Plebeu”, com roteiro e direção de Breno Soares, apresenta a história do guitarrista Irio de Paula (1939-2017). Brasileiro, o músico fez carreira na Itália, depois de se estabelecer por lá nos anos 1970, durante uma turnê em que acompanhava a cantora Elza Soares. Exímio guitarrista e violonista autodidata, com os dois pés fincados no samba jazz, gravou mais de 50 discos na Europa e tem como um dos marcos de sua carreira a participação na gravação italiana da canção Per un Pugno di Samba, de Chico Buarque, regida e orquestrada pelo maestro Ennio Morricone.

Irio de Paula ganhou bastante reconhecimento na Itália quando sua canção “Criança”, interpretada por Franco Micalizzi, integrou o filme L’ultima neve di primavera (1973), dirigido por Raimondo del Bazzo. A canção alcançou o primeiro lugar nas paradas de sucesso no ano de lançamento do filme. A exibição do filme no festival InEdit resulta em uma grande homenagem a este personagem, quase exatamente um ano após sua morte, falecido em Roma em 23 de maio do 2017.

 

 

Smetak – Simone Dourado, Mateus Dantas e Nicolas Hallet

 

Outro filme que apresenta um personagem sempre citado nas entrelinhas, mas com pouco reconhecimento em grande escala, é o filme “Smetak”, dirigido por Simone Dourado, Mateus Dantas e Nicolas Hallet. Na tela, vemos uma retrospectiva da vida de Walter Smetak (1913-1984), músico suiço radicado no Brasil em 1937 que fez sua carreira dedicando-se ao ensino, à experimentação sonora e à construção de instrumentos na Universidade Federal da Bahia, onde se estabeleceu como professor a convite feito pelo compositor e regente Hans Joachim Koellreutter (1915-2005).

O músico fez parte de uma importante cena cultural na Universidade da Bahia que, a partir dos anos 1950, reuniu expoentes estrangeiros radicados no Brasil como a arquiteta italiana Lina Bo Bardi (1914-1992), a dançarina polonesa Yanka Rudzka (1916-2008), o fotógrafo e antropólogo francês Pierre Verger (1902-1996), que ajudaram a formar nomes como Gilberto Gil, Caetano Veloso, Glauber Rocha e Tom Zé, nomes que vão fazer partes de movimentos culturais cruciais como o Cinema Novo e a Tropicália.

 

O Fabuloso Zé Rodrix  – Leo Côrtes, Toninho Vaz

 

Outro nome retirado do ostracismo não é tão outsider quanto os dois citados, mas é também importante retomar sua importância para o cenário da música popular e psicodélica brasileira. O Fabuloso Zé Rodrix conta a história de José Rodrigues Trindade (1947-2009). Autor de sucessos nacionais como Casa no Campo, interpretada por Elis Regina, o músico integrou o grupo Som Imaginário, representante da psicodelia nacional que acompanhou Milton Nascimento no álbum Milagre dos Peixes; foi um dos expoentes do rock rural, com os discos gravados ao lado dos amigos Sá e Guarabyra; e foi um dos integrantes da banda Joelho de Porco, entre apenas algumas de suas atividades mais relevantes.

Abaixo, um vídeo com uma apresentação da Banda Som IMaginário e uma de suas músicas mais conhecidas: “Feira Moderna”. Zé Rodrix é o cantor e tecladista.

 

Onde Está Você, João Gilberto?, dirigido por Georges Gachot

 

Outro filme que chama a atenção na seleção do festival é o Onde Está Você, João Gilberto?, dirigido pelo franco suíço Georges Gachot, baseado no livro Ho Ba La La – À Procura de João Gilberto, do alemão Marc Fischer. O filme apresenta a busca do documentarista pelo maior expoente da música brasileira no mundo: João Gilberto.

Documentarista já com uma boa relação com a música brasileira, tendo dirigido filmes como Música é Perfume (2005), no qual retratou Maria Bethânia; Rio Sonata (2010), cuja personagem principal era Nana Caymmi; O Samba (2015), onde tem Martinho da Vila como protagonista. Gachot demonstra um pouco do caráter mitológico que o isolamento de João Gilberto ganhou, especialmente entre os estrangeiros. Excêntrico, preso em seu apartamento e sem fazer apresentações há anos, a história e a música de João Gilberto ganham destaque internacional no ano em que a Bossa Nova completa 60 anos da icônica gravação de Chega de Saudade (Jobim/Vinicius), interpretada pelo violonista ao lado de Elizeth Cardoso.

 

Vinil, Poeira e Groove – direção de  Diego Casanova

 

Já no filme Vinil, Poeira e Groove, dirigido por Diego Casanova, o personagem não é um músico, é um objeto: o disco de vinil. Um dos maiores motores da economia do disco no Brasil e no mundo até os anos 1980, o disco de vinil viveu, depois da chegada do CD, uma lenta agonia. A pirataria e o compartilhamento de arquivos pela internet ampliaram a queda. Os discos foram deixados de lado pela indústria, que parou de fabricá-los; e pelo público, que parou de adquiri-los.

 

Vinil, Poeira e Groove (Vinyl, Dust and Groove) – Trailer from Impulso.hub on Vimeo.

 

 

No entanto, vários jovens de diferentes partes do país continuaram a frequentar sebos e algumas das poucas lojas de discos restantes e foram resgatando preciosidades que andavam abandonadas por aí. Com paciência, trabalho e cheirando muita poeira, o trabalho começou a dar retorno e os insistentes colecionadores começaram a redescobrir importantes personagens esquecidos, salvar discos icônicos do ostracismo e, ao mesmo tempo, embalar festas e recuperar (em uma escala muito menor, mas sustentável) um mercado abandonado há anos no Brasil.

Com depoimentos de pequenas empresas e personalidades do meio musical como Criolo, Arthur Joly, Discopédia, Vinil é Arte, Goma Gringa, Vinil Brasil, Somatória do Barulho e Partido B.O., o filme apresenta um retrato do renascimento do vinil enquanto possibilidade econômica para músicos, pequenos empresários e aficionados pelo disco em um cenário de redesenho da cadeia produtiva musical no século XXI.

 

Confira a programação completa e outras informações do festival.

 

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Itamar Dantas – Jornalista graduado pela UFJF, pós-graduado no curso Estéticas Tecnológicas pela PUC-SP.  Foi redator e curador de conteúdo do site Álbum Itaú Cultural, veículo voltado à música popular brasileira contemporânea.  Atualmente, escreve um livro e participa da  produção de um documentário com a Impulso Hub sobre a companhia de dança afro Brasiliana e é fotógrafo da Google.

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